Tuesday, June 19, 2007

Ciranda do Amor e Cotidiano ( revisado;reformulado)

O mundo parece óbvio. Acordava e uma visão pouco comum o fazia ver os pés despreocupados pela horizontal.Todos tão rápidos e frenéticos,todos os dias da mesma maneira torpe.Quando a neblina do acordar ia se dispersando, é que percebia alguns pombos,todos tão frenético quanto,buscando alimento, disputando cada migalha deixada cair por qualquer.Lembrava-se que em pouco tempo seria ele a brigar pelas migalhas deixadas cair.
Às vezes as esmolas doadas davam o bastante para o que comer, às vezes - mas disso não gostava-, tinha de recorrer ao que a sorte doaria numa lixeira tão qualquer como as pessoas e os pombos.
Levantava-se e a angústia aumentava em descobrir que permanecia invisível.Era comum,e já nem se lembrava como e a quanto tempo estava ali,mas a marquise ao menos por essa noite havia sido abrigo pitoresco.
Notava o clima e dava o veredicto: Vai continuar frio. E nem sabia se havia dito ou apenas pensado.Tinha se esquecido da própria voz,nem sequer lembrava a última conversa que tivera com alguém, só havia por muito tempo, monólogos de frases soltas.A mais comum de todas: “Pelo amor de Deus!”As pessoas gostava de ouvir o nome de Deus , suscitava misericórdia.Todos gostam de saber que sendo misericordiosos, estão também, sendo observados “pelo amor de Deus”,isso lhes dava uma espécie de moeda de troca,e se não em vida, poderia ser descontada ao menos no céu.Um pecado aqui ,uma moedinha acolá e, ficaria tudo certo . “Espero que não esfrie mais”.Todo ser humano se vale também do artifício da esperança para sentir-se melhor,embora o ambiente lhe forçasse a ser menos homem ,seja pela aparência seja pelos modos, ainda era homem, mas não sabia disso, nem se importava com isso.Estava era mais preocupado com o clima,se esfriasse,teria de comprar outro cobertor alucinógeno num bar ,tão qualquer quanto as pessoas,pombas e, a comida, ficaria por conta da sorte às lixeiras.É mais fácil encontrar comida em lixeiras, por isso sempre ficava a segundo plano.
Seus traços animalescos, o afastava do passado. Sempre há uma marca, em qualquer vida, e sendo vida já é marcada: As lembranças. Elas vinham paulatinamente em intervalos longos, - mas ele costumava a também não gostar disso- e sempre às interrompia: “Pelo amor de Deus!” Uma moeda. Nesse dia teve um choque. –“Amanhã acordo cedo”. Um silêncio sucedeu por instantes. –“Acordo cedo, e tomo banho no abrigo”. Terminou a frase com outro intervalo de tempo. Não sabia ao certo, se pela demasiada bebedeira da noite passada, ou o fulgor do frio, a esperança havia sido despejada aos montes sobre ele naquele dia. Desde os tempos de rua, que para ele havia se tornado uma casa grande de mais, que às vezes de repentino era tomado pela esperança. Como último recurso, apegava-se a ela.Havia uma roupa a ser estreada,nunca tivera sido usada desde a vida nova,e se manteve com aspecto de nova,com cheiro de bolor ,mas aparência agradável.
Planejou o próximo dia e de novo,depois de muito tempo escutou:Risos!Estava rindo?Podia ele rir?Lembrou-se de seus filhos,como estariam?E logo percebeu que estava se lembrando,e para sanar isso: -“Pelo amor de Deus!”Outra moeda.
O dia passava na velocidade dos carros à sua frente, e depois do Sol do meio dia,o dia murchava de um todo a escuridão.Sentia-se meio réptil quando aproveitava os calores das coisas ,já que seu corpo franzino já não se aquecia sozinho.E quando não dava mais,ia a um bar qualquer e comprava um cobertor.Às vezes o cobertor além do frio,matava a fome a sede e ele próprio aos poucos.Como gostava de morrer aos poucos,gradativamente,era uma parte a menos a ser lamentada.
A noite era menos interrompida quando este estado o acompanhava: -“Pelo... Amor... de... Deus!” Uma moeda, às vezes, este estado matava também a pena e dava lugar a: “Vagabundo alcoólatra!”. Este estado matava a esperança.
O mundo parece óbvio. Acordava e numa visão pouco comum, via os pés despreocupados. E –“Pelo amor de Deus”, ia-se vivendo.

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